26 de agosto de 2006

«A África pelos Africanos»: "Voz Própria"

“Voz própria”
«L’Afrique par Elle-même», em versão CPF

A África vista pelos africanos ao longo de um século de fotografias, em exposição e em livro

EXPRESSO/Actual de 02-09-2006

FOTOS REVUE NOIRE, PARIS
Anónimo, retrato, Saint-Louis, Senegal (c. 1915-30)
Fotografia de Abderramane Sakaly, Mali (c. 1965)
Fotografia de Cornelius Yao Augustt Azaglo, Costa do Marfim (c. 1955-60)

Chegou tarde e mal, mas veio. Passaram oito anos desde que a exposição «L’Afrique par Elle-même» foi inaugurada em Paris, acompanhada pela Anthologie de la Photographie Africaine et de l’Océan Indien, um grande volume encadernado com perto de 500 imagens. Era o culminar das actividades da luxuosa «Revue Noire», que, com retaguarda nos grandes meios da cooperação francesa, se dedicava a explorar a arte e a cultura dos países africanos, e em especial a fotografia. A revista durou de 1991 até 99, e teve números monográficos sobre Cabo Verde, Moçambique e Angola.

A mostra seguiu em digressão para São Paulo e Cidade do Cabo, e foi, toda ou em parte, aos Encontros de Bamako, no Mali, a Londres, Washington (o Smithsonian), Nova Iorque, Bolonha, Berlim, Genebra (a ONU) e, já em 2003, ao antigo museu colonial de Tervuren, na Bélgica. O livro teve traduções brasileira e inglesa (disponíveis no Porto) e uma edição condensada, actualizada e de bolso. Não houve mais nenhum projecto com a ambição de sumariar toda a história da fotografia feita por africanos subsarianos, porque cresceu o campo das investigações localizadas e aumentou a concorrência entre os agentes deste mercado.

A versão acolhida na Cadeia da Relação é ainda mais abreviada que a síntese belga, mas mesmo assim suficiente para mudar a informação visual herdada da fotografia etnográfica ou dos postais coloniais que ilustravam as raças humanas e memórias familiares. De facto, os africanos tinham-se retratado a si próprios desde o princípio do século XX, pelo menos nas zonas que mais depressa se ocidentalizaram, e mostraram bastante satisfação em fazer-se fotografar. O olhar com que enfrentaram os caixotes dos ambulantes ou as câmaras dos estúdios parece, desde o início, associar a orgulhosa consciência das mudanças de identidade social à atracção pelos novos meios de produção de imagens, e a cumplicidade que estabeleceram com os fotógrafos negros continua hoje, após todas as catástrofes, a transmitir dignidade e optimismo.

Entretanto, apesar de conhecido o misto de autismo e falta de meios a que o Centro Português de Fotografia se condenou, já são menos aceitáveis a discrição com que se apresenta esta antologia de referência e a indiferença com que se estabeleceram as condições expositivas. Sem catálogo próprio, haveria que reforçar a informação prestada ao visitante, mas é o contrário que ocorre, sem que se reconheça qualquer sentido sequencial ao longo das quatro enxovias utilizadas como galerias.

O que aqui parece disposto ao acaso poderia agrupar-se em grandes capítulos cronológicos e temáticos, embora não estanques, com base nas edições referidas (que usam, aliás, critérios algo aleatórios). Começar-se-ia pelos «precursores», designação aplicada aos primeiros profissionais africanos, alguns deles anónimos. Entre eles está Antoine Freitas (1919-1990), angolano radicado em Kinshasa que aparece na ampliação de um postal ilustrado, retratando ao ar livre um grupo de mulheres e crianças rodeado por curiosos, e intitulando-se «primeiro fotógrafo congolês ‘à la minute’». São conhecidos, mas não se expõem, os retratos de estúdio da filha Suzanne (anos 50).

Faltando Meïssa Gaye, o mais velho fotógrafo do Senegal (1892-1982), destacam-se as imagens anónimas das mulheres de Saint-Louis, o primeiro grande centro colonial francês, onde se praticou um tipo original de retrato doméstico que fixava as diferenciações sociais com recurso sistemático a fotografias de família (ver foto). Coisa diferente são os retratos das esposas indígenas de administradores e comerciantes, as «signares» (do português senhoras), que as tabelas traduzem mal por beldades, misturando diferentes informações.

Depois, sem uma estrita diferenciação cronológica, identificam-se como «retratistas» alguns profissionais a quem se reconhece a constância de preocupações estilísticas, com passagem ao estatuto de autores ou mesmo de artistas. As presenças centrais são as de Mama Casset (1908-1992), que teve o estúdio da moda da burguesia negra de Dacar, e de Cornelius Yao Augustt Azaglo (1924-2001), da Costa do Marfim, faltando o mais promovido Seydou Keïta (1923-2001), de Bamako, mostrado em Coimbra em 1997. Outras práticas tradicionais de estúdio continuam em provas pintadas à mão vindas de Adis Abeba e nos retratos a cor de Bobby Bobson, de Durban, já nos anos 80.

Uma breve passagem pelas agências oficiais faz referência ao espólio do Centro de Informação e de Turismo de Angola (CITA), criado em 1949, depois integrado no Departamento de Informação e Propaganda do MPLA (DIP), mais tarde privatizado com o nome A Foto, e um fundo de mais de 150 mil imagens. A seguir, é demasiado rápida a presença da revista «Drum», da África do Sul, 1951-1984, muito influente nos novos países independentes.

Para além do caso particular de Ricardo Rangel (1924, Moçambique), o conjunto mais forte é constituído por quatro fotógrafos que sustentaram a prática da reportagem de rua com o sentido do retrato (também no sentido comercial) e que registaram as transformações sócio-culturais dos anos 60 percorrendo os bares e as festas, fotografando os jovens e a noite com uma nova liberdade e recurso ao flash: em Bamako, Abderramane Sakaly (1926-1988) e Malick Sidibé (1936; distinguido com o Prémio Hasselblad 2003, e exposto no CAV, Coimbra, em 2004); Jean Depara (1928-1997), em Kinshasa, e Philippe Koudjina (1940), em Niamey, Nigéria.

A entrada na actualidade faz-se, nas edições, sob o discutível título «Em busca de uma estética», apesar da pluralidade de caminhos representados. Rotimi Fani-Kayodé (Nigéria, 1955 - Londres, 1989) praticou a auto-encenação erótica e ritualizada, enquanto Samuel Fosso (1962) se mantém fiel aos auto-retratos de estúdio. «Les Fous d’Abidjan» (expostos no Espaço Oikos, em 1997) são um radical projecto documental de Dorris Haron Kasco (1966, Costa do Marfim), enquanto René-Paul Savignon (1970, Reunião) fotografa o cultivo do arroz na tradição «humanista», e Zwelethu Mthethwa (1960) é autor de uma notável série de retratos a cores realizados no interior de casas das «townships» do Cabo («Images of Dignity»).

«A África pelos Africanos»
Centro Português de Fotografia,
Cadeia da Relação, Porto, até dia 24

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