22 de agosto de 2006

Horsfield 1: Ainda os "quadros impressos"

A maneira como envelhecem os textos ditos teóricos é instrutiva. (O problema é que demoram muito tempo a desaparecer e há sempre alguém a desenterrar as ruínas. A "escolástica" vive disso.) A propósito de Craigie Horsfield, no CAM (ver "Actual" de 26 de Agosto).
Ver como as classificações generalizadoras são quase sempre de pouca consistência e as obras que perduram são as que resistem à caducidade das fórmulas: algumas obras são demonstrativas, ou apenas pretextos para exercícios críticos, outras libertam-se dessas relações instrumentais. Mas esses textos ditos teóricos, sucessivamente recolhidos em antologias escolares, formam uma núvem que a muitos impede de ver.
Por exemplo a "Outra objectividade" de Jean-François Chevrier e James Lingwood (exposição e "doutrina" de 1988, no contexto dos debates pós-modernos).
"As suas imagens (as dos 11 incluidos na exp., com CH) não nos dizem nada de novo sobre a fotografia ou o seu potencial, mas dizem-nos muito acerca do que pode ser hoje a experiência artística (através da e com a fotografia) no contexto da cultura contemporânea. Estes artistas não podem aderir aos consolos (?) supérfluos da agilidade subjectiva ou do alerta visual, como fizeram os Kertesz, Cartier-Bresson, Winogrand e Friedlander, já que estão muito conscientes das restrições estéticas e, em termos gerais, sociais, que condicionam esse método. Sabem que esta atitude não oferece suficiente resistência à equiparação das imagens produzidas pela indústria cultural. Sabem que esta liberdade de visão reivindicada e cultivada pelos "auteurs" fotográficos é uma fonte de crescente consolo (?) para uma definição abstracta da individualidade e a subjectividade." (trad. do espanhol: "Efecto Real", ed. Jorge Ribalta, GG, Barcelona)

Também aqui é um suposto progressismo político que justifica a desvalorização de uns (por sinal os maiores) e a legitimação de outros (em geral medíocres). Mas é visível que se trata de mais um passo para, em nome da "esquerda", reduzir o potencial da fotografia, trocado pelo "reflectir" sobre "o que pode ser hoje a experiência artística (...) no contexto da cultura contemporânea".
Trata-se de a encerrar na galeria e no discurso teórico quando o que pode haver de perturbador ou "subversivo" na fotografia é a imprevisibilidade do trânsito entre os seus usos funcionais (a informação, etc) e o seu reconhecimento como arte - um trânsito reversível, onde a passagem à galeria ou ao museu não significa a prisão num "mundo da arte", autónomo ou reservado. Ela é instável no seu estatuto "ontológico" e é reutilizável.
Com a habitual lógica do "esquerdismo" quer-se mais resistência à indústria cultural mas a troco do encerramento no guetto da "experiência artística no contexto da cultura contemporânea".

A seguir, JFC cita Jeff Wall, que critica a espontaneidade da imagem fotográfica, a de Cartier-Bresson, por exemplo: "Este tipo de fotografia torna-se uma versão da arte informal; apesar da sua riqueza formal, está condenada a contemplar sempre admirativa e ironicamente o mundo em lugar de construí-lo" (1986). A referência superficial às teses sobre Feuerbach faz a conveniente piscadela de olho política.
É menos conhecido o prefácio em forma de conversa com JFC para a edição francesa dos escritos de Jeff Wall (ENSB-A, Paris, 2001) onde este comenta os seus combates perdidos contra a fotografia e, apesar de muita coisa mal vista, se pretende distanciar do "academismo crítico" dominante, que surgira a partir de 1973 ou 74 em resposta a uma exigência política activista e se edificou como uma ortodoxia "qui sévit toujours".

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