20 de agosto de 2006

Manhã de domingo/ A. Estrela

Museu do Chiado, por dever de ofício; i.e., sem expectativa de qq surpresa. Ambiente de igreja, templo escurecido, um credo obscuro. Meia dúzia de visitantes, com turistas, esforçados na leitura das tabelas explicativas. Uma dezena de exercícios escolares sobre efeitos de tecnologia básica, tornada uma espécie de metafísica do vídeo, ocupa todo o edifício. (Noutras condições, sem a pretensão de uma "antologia" de museu, poderia ser interessante encontrar algumas das peças expostas.)

Trata-se certamente de uma muito progressista política de "desanimação" ou desertificação cultural. E logo no centro de Lisboa, no pino do Verão... Mas não vale a pena voltar à carga. Depois dos artigos já publicados, há que esperar por sinais de algum movimento de opinião, por alguma pressão social. Como tudo isto não importa a ninguém, não interessa escrever para o "meio" e menos ainda fornecer ocasiões para que os seus agentes se mobilizem em defesa de alguma "vítima". É deixar apoderecer.

O que é mais curioso é o uso das palavras. A mostra de Alexandre Estrela tem, segundo P.L. no desdobrável, um "conceito orientador": "a ciência como ficção ou ficção científica como protensão do gesto artístico" (sic). - Protensão: (engenharia) acto ou efeito de submeter (o cimento armado) a esforço prévio para melhorar a sua resistência (do latim... acto de estender).
A ideia de "obra" artística tinha entrado em crise, temos agora o "gesto" artístico. É-se contra a "obra", com as suas aspirações de autoridade, eternidade, etc. Mas sublinha-se a "protensão do gesto" - reforça-se (ou esforça-se) o "gesto artístico".

E repete-se uma versão pateta da "História", feita de sucessivas gerações (confundindo vaga, grupo, promoção escolar, turma, com geração). Diz-se da "nova geração" em que se inclui A.E., "num momento de radicais alterações tecnológicas": "Esta geração reconfigurou o objecto artístico e alterou radicalmente o horizonte da produção nacional".
Tudo muito radical e definitivo, substituindo o curso das coisas, o movimento longo, pela apoteose do "momento". É a atitude da informação publicitária, a banha da cobra com tempero tecnológico. Estas palavras não dizem nada.

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