17 de março de 2007

Jose Loureiro - Cristina Guerra 2001

"Linhas de vida"

EXPRESSO/Actual de 22/12/2001

Razão e acção na pintura experimental de José Loureiro

(Galeria Cristina Guerra, até 5 de Janeiro)

Para quem acompanha o trabalho de José Loureiro através das sucessivas exposições, cada uma das suas telas é uma pintura plenamente independente no seu existir individual e também um momento de um devir contínuo, um elo numa cadeia de realizações sequenciadas. Cada quadro é, ao mesmo tempo, imprevisível na realidade da sua configuração material e é sustentado pela contiguidade e renovação dos «problemas» postos pelo trabalho anterior do pintor. Em vez de encontrarmos variações sobre uma solução experimentada (o desdobramento de uma fórmula ou sistema que caracterizaria uma fase de trabalho, como é mais frequente), surpreendemos, de tela em tela, os passos de um caminho que se explora e que permanece em aberto, desconhecido.

O livro este ano publicado pelo artista na Relógio d'Água põe à disposição do espectador menos assíduo todo o corpo de trabalho, desde 1994 e com alguns passos da produção anterior, que conduziu à exposição actual, mesmo se no caso da pintura, e da sua em especial, nenhuma reprodução se substitui ao confronto visual e físico com a materialidade sensível do quadro. de uma pintura em acção que se trata, legível de imediato como um fazer «experimental» que instabiliza em permanência os dados já antes utilizados ou estabelecidos para enfrentar sucessivamente novas possibilidades. A mobilidade do pintor não é, em absoluto, a de uma dispersão volúvel de atitudes, à maneira do nomadismo com que se destitui a marca autoral, nem a continuidade do seu trabalho resulta da fixação de um sistema ou de uma maneira. O seu trabalho, pelo contrário, realiza-se a partir da vitalidade assumida de possibilidades contrárias, entre a ideia conceptualmente formulada e a experiência prática e imprevisível da sua realização plástica, entre a regra construtiva (uma organização do espaço, uma grelha geométrica) e a admissão do que acontece sobre a tela como acaso, acidente ou estranheza, entre um princípio frio de definição e depuração racional e a abertura, no terreno da acção pictural, ao que é precário e impuro.

Todos estes quadros, de grande ou muito grande formato, com fundos de cor mais ou menos irregularmente lisos, são atravessados por riscas negras horizontais e paralelas, agrupadas em número variável mas com distâncias constantes entre si (como uma pauta, sugeriu o pintor). Formam barras transversais de diferente largura, dispostas em lugares diversos da tela. Em quase todos, esse espaço irregularmente dividido é atravessado por linhas verticais, por vezes oblíquas, de diferentes cores e espessuras que o percorrem de modos infinitamente variáveis, sempre mais ou menos acidentados e fragmentados: fluem (escorrem) rapidamente, alargam-se em barras horizontais, quebram-se, serpenteiam, cruzam-se, conflituam entre si, conhecem variações tonais, retomam uma direcção ascendente, interrompem-se, etc. Nesse traçado de sugestão musical a matéria pictural imobiliza-se e permanece líquida e vibrante, registando como um sismógrafo a instabilidade do que em cada quadro, como na vida, é regra ou surpresa. Sustenta-se em cada quadro um olhar inesgotável, no qual a leitura das formas não se encerra num mera inteligência formal, sem que se abram espaços de representação ou de metáfora (que os títulos não autorizam). São linhas de vida que se percorrem, de pintura e de vida, inseparavelmente.

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