17 de março de 2007

Jose Loureiro - Entrevista 1 (1997)

EXPRESSO/Actual de 29 Nov. 97

Entrevista republicada em JOSÉ LOUREIRO, Relógio D'Água Editores, 2001

JOSÉ LOUREIRO: São pinturas feitas com tinta

Idade: 36 anos. Há dez, desde a pimeira exposição, pintor a tempo inteiro e, agora, um dos nomes maiores da actualidade. Fragmentos de uma conversa sobre pintura:

EXPRESSO — Para além de ser sobre tela, «sobre» que é esta pintura?
JOSÉ LOUREIRO — É uma pintura sobre a pintura. Usando os meios da pintura e chegando a uma conclusão.
EXP. — Já chegou a uma conclusão?
J.L. — Não. Cheguei a conclusões provisórias, no ano passado cheguei a algumas conclusões, este ano cheguei a outras.
EXP. — Cada tela é uma conclusão?
J.L. — Num certo sentido é, mas é uma conclusão que se prolonga por outras telas. Nada é concludente. Quando se fizer uma pintura absolutamente concludente, isto acaba. Estas são pinturas que têm a ver com a disposição da tinta na superfície da tela, porque o processo de fazê-las é extremamente importante.
EXP. — Pode dizer-se que estas são pinturas sobre bolas e que as anteriores eram sobre quadrados?
J.L. — Na série com quadrados havia uma imagem pré-existente, agora, a ordenação das bolas sou eu que a faço. As pinturas das «Palavras Cruzadas» referiam-se ainda a uma imagem, que era retirada «ipsis verbis» de um jornal; estas pode dizer-se que são pinturas verdadeiramente abstractas porque não se referem a nada da natureza ou das imagens ou do mundo visível que nos rodeia. São construções e, para mim, a estrutura da pintura sempre foi muito importante: estas grelhas de bolas estruturam a pintura.
EXP. — Quando refere que o modo de fazer é muito importante é porque nem tudo está à vista?
J.L. — Por trás das pinturas estão outras pinturas e o resultado final é um processo de sobreposição e de amálgama, mais ou menos controlado, de tudo o que se passa. É engraçado que uma pessoa pode pensar muito nas pinturas antes de as fazer e depois de as fazer, mas enquanto as faz o pensamento não ajuda muito. Então há que dominar aquela matéria, que é viscosa e nos está sempre a fugir.
EXP. — A matéria é tão importante como a forma?
J.L. — Para mim a matéria é extremamente importante e sobretudo as marcas que eu deixo na matéria, ou com o pincel ou com as impurezas que vão surgindo. São pinturas feitas com tinta...
EXP. — Tem que ser óleo?
J.L. — O óleo tem características específicas, nomeadamente o facto de ser um material viscoso, de demorar muito tempo a secar, de se poder sobrepor infinitamente. Tudo isso faz com que a superfície seja infinitamente modulada e modelada e enriquecida.
EXP. — Existe no quadro uma estrutura regular de bolas recortadas que estabelece uma ordem, mas há sempre um balouçar entre a ordem e a desordem.
J.L. — Eu sempre tive essa necessidade de ordem. A liberdade para mim não existe, quando estou a pintar: há que estar sempre a tomar decisões e tomar decisões implica uma noção muito clara da ordem, embora seja uma ordem aparentemente simples, porque é uma trama, ou são sucessivas tramas que se sobrepõem e umas ficam mais visíveis do que outras. Pode acontecer que a última trama seja a mais evidente e que não vejamos nenhuma das tramas que ficaram para trás, pode acontecer que se vejam várias tramas sobrepostas.
EXP. — O que quer dizer que é também um trabalho sobre o espaço.
J.L. — Sobre o espaço e sobre a luz. Apesar de não estarmos perante uma janela, há uma terceira dimensão; basta considerar que conseguimos ver coisas que estão para trás e, assim, o facto de a superfície ser plana é ultrapassado. A superfície é planificada, mas é perfurada, é subvertida.
EXP. — Voltando à questão da ordem, pode dizer-se que ela não impede o acidente...
J.L. — Não. O acidente é extremamente importante para a construção da pintura, mas não quer dizer que seja o acaso. É justamente o acidente e não o acaso, é integrar o acidente numa construção.
EXP. — Ao pintar, usa grelhas perfuradas...
J.L. — São grelhas de um papel vegetal mais grosso, como usam os arquitectos, que é muito resistente e se pode reutilizar várias vezes. As perfurações vão ganhando uma espessura de tinta que corrói as margens de cada círculo e tornam-se elas próprias maleáveis, elásticas.
EXP. — Há aí um jogo entre o feito à máquina e à mão.
J.L. — Para mim, a mão e a pincelada estão na essência da pintura, da minha pintura. A grelha não é um apoio, estrutura a pintura, mas não é uma muleta da pintura. Faz parte da construção da pintura, mas não pode dissociar-se do que anda à volta. Estas bolas, estes pontos grandes navegam num magma de tinta elástica, que se espalha e se retrai. A grelha é ordem mas a ordem é sempre infringida, para voltar a ser ordem, para ser novamente infringida. Não é um ponto de chegada.
EXP. — O ritmo é também importante.
J.L. — O ritmo e a repetição. A tela é pontuada por uma estrutura muito simples, ritmada, quase minimalista, mas sem qualquer referência reducionista; trata-se de usar uma forma simples para se ser claro, para se pintar claramente. Uma pintura para ser clara não necessita de reduzir os seus meios, mas tem de estar consciente dos seus meios. O facto de esta estrutura ser simples ajuda à visão daquilo que me interessa, que é uma superfície coberta de tinta, com uma determinada profundidade, com um determinado conjunto de camadas sobrepostas.
EXP. — Trata-se de procurar uma regra?
J.L. — Mas a regra está sempre a escapar. Com cada uma das telas tenho de recomeçar tudo de novo, apesar de haver evidentemente uma relação entre elas. De cada vez, penso que as coisas vão ser mais fáceis, mas são novamente complicadas e tem de se recomeçar sempre e sempre e sempre. É impossível estabelecer uma regra. Mesmo quando se trabalha com uma forma tão simples.
EXP. — Poderá dizer-se que o seu trabalho é formalista?
J.L. — Não, de modo nenhum. Apesar da forma ser muito importante, o formalismo implica que não haja um sentido, implica um arranjo — é apenas um arranjo — e estas coisas têm um conteúdo, que não é evidente, que não é óbvio nem é para ser óbvio. Uma pintura é tanto mais interessante quanto não for óbvia. O formalismo tem uma conotação pejorativa, quer dizer que a forma se esgota na forma. Mas estas pinturas não se esgotam nesta forma. Apesar de pensar muito nos materiais, também não basta pensar só nos materiais...
EXP. — Falou num sentido ou conteúdo... Tem a ver com a emoção?
J.L. — Claro. Estas pinturas são para ser experenciadas, tem de se sentir qualquer coisa à frente delas, tem que se estar algum tempo à frente delas, tem que se usufrui-las... Mas o sentido delas não é imposto.
EXP — Como se situa perante a convicção de que outras linguagens, herdadas do «ready made», são mais contemporâneas?
J.L. — Duchamp já faz parte de uma tradição, já passaram muitos anos sobre a aproximação que ele fez da arte, e neste momento percebe-se que é um caminho paralelo. A pintura pode ter sido nalgum momento abalada por essa pressão, mas acho que podemos continuar a pintar calmamente, sabendo que as outras linguagens, o vídeo e a instalação, são «media» paralelos à pintura. É completamente despropositado dizer que são «media» mais avançados... apenas permitem outras possibilidades. Como a pintura tem uma tradição maior, de muitos séculos, pode haver quem pense que é redundante estar a pintar. Mas não, de maneira nenhuma, a pintura não está nada estafada, é apenas um «medium» que se pode utilizar e, hoje, cada vez mais livremente. Muitas pessoas desistiram ou põem problemas em relação à pintura, mas eu sinto-me mais livre. Por que não fazer pinturas com bolas, usar pincéis e fazer o que nos apetece?
EXP. — Trata-se de aceitar e de continuar uma tradição?
J.L. — Claramente. Toda a pintura que está para trás é importante. Quando pinto, continuo a pensar, por exemplo, no que levava Cézanne a pintar constantemente a montanha de Sainte Victoire. O que leva uma pessoa a pintar constantemente o mesmo motivo? Acho que isso é a essência da pintura. É ter essa persistência, esse rigor. A arte corre paralela à vida, é um processo inesgotável.

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