Balanço de 2000: "Amadeo de volta a America"
EXPRESSO/Cartaz de 30-12-2000
Amadeo de volta à América
Balanço de 2000
Foto: «Saut du Lapin», de 1911, um dos quadros de Amadeo que foram expostos e vendidos no «Armory Show», em 1913
EM 1913, Amadeo de Souza-Cardoso teve uma presença notada entre os mais de 300 artistas incluídos na exposição que levou a arte moderna aos Estados Unidos e que veio a ficar conhecida como «The Armory Show» por ter sido montada, em Nova Iorque, no arsenal desocupado do 69º Regimento de Infantaria. 2000 foi o ano da sua redescoberta americana, graças a uma exposição antológica que se inaugurou na Carcoran Gallery, de Washington, ainda em 1999, foi depois apresentada no Art Club de Chicago e, por fim, em Nova Iorque, na AXA Gallery, em mais uma escala acrescentada à digressão.
«Enquanto foi vivo obteve mais êxito na América do que no seu país ou em Paris», assegura Laura Coyle no respectivo catálogo. Em confronto com o acolhimento mais que discreto das anteriores retrospectivas europeias, pode dizer-se que o mesmo voltou a acontecer depois de morto. Para culminar a operação, foi localizado no Museu de Michigan um quadro vendido em 1913 que era dado como desaparecido.
O título do «Chicago Tribune» de 10 de Fevereiro anunciava: «Finalmente (at long last), uma exposição individual do Modernismo de Cardoso». Na sua crítica, Alan Artner destacou o quadro Coty, de 1917, como a mais pessoal das pinturas de Amadeo e como uma das obras mais impressionantes («striking») de toda a pintura moderna, transcendendo as influências do cubismo e dos papéis colados de Picasso e Braque num «frenético 'patchwork' de texturas e imagens sem paralelo directo na arte desse período».
Numa página inteira da edição de fim-de-semana do «New York Times» (16 de Junho) referia-se «Um flash deslumbrante, vindo da história longínqua», ilustrado a toda a largura pelo quadro Salto do Coelho, de 1911, outra das obras vendidas no «Armory Show», depois doada ao Museu de Chicago. E a influente Roberta Smith, que falava de «un exciting show», uma «retrospectiva caída do céu», voltou à carga no dia seguinte num artigo intitulado «Acrescentando um nome à lista do Modernismo».
No «The New York Observer» de 7 de Agosto, outro crítico de renome, Hilton Kramer, e um título caloroso: «O cubista Amadeo regressa à cidade do Armory Show». A lista poderia continuar.
Em 1913, Amadeo não se deslocou à América, mas, das oito obras que enviara, sete (seis telas e uma aguarela) foram vendidas e não voltaram a Paris. Apoiado pela admiração que lhe votava o pintor e crítico Walter Pach, agente na Europa dos organizadores do «Armory Show», o seu nome foi um dos 35 anunciados no cartaz de Nova Iorque, numa lista que se iniciava com Ingres, Delacroix, Degas, Cézanne, Redon, Renoir, Monet, Seurat e Van Gogh... Depois, a I Guerra Mundial e a morte aos 30 anos, vítima da «gripe espanhola», goraram projectos para expor individualmente na América.
Intitulada «At the Edge: a Portuguese Futurist», explorando no título e no grafismo o pormenor de um alvo (o disco ou olho de boi do quadro Mucha, de 1915), a antologia começou a ser preparada em 1995 por Jack Cowart, director do Museu Corcoran, e por Laura Coyle, conservadora do mesmo museu, em colaboração com o Gabinete de Relações Internacionais do Ministério da Cultura.
O interesse americano traduziu-se numa investigação aprofundada sobre a participação de Amadeo no «Armory Show», reunindo dados inéditos sobre a localização dos seus quadros nas diferentes montagens da exposição (que foi levada também a Chicago e a Boston), bem como sobre a identidade dos coleccionadores que lhe compraram as obras e sobre a respectiva fortuna crítica. Para além das colaborações de José-Augusto França, Pedro Lapa e Rui Afonso Santos, outros textos inovadores de autoria americana debruçam-se sobre as múltiplas relações e influências internacionais do pintor.
Entre as razões da recepção favorável - e trata-se sem dúvida de um êxito genuíno, em que não intervieram movimentações promocionais e de mercado (até porque não há, infelizmente, obras disponíveis para entrarem em museus ou colecções particulares) - poderá estar também o acerto da selecção das 53 obras expostas, que se iniciou com 13 telas e desenhos do período da apresentação de Amadeo na América e que, depois, não se enfeudou à perspectiva habitual que procura associar o pintor à aprendizagem do cubismo escolar e a um ponto de vista excessivamente parisiense.
Entretanto, um outro episódio americano deve figurar no registo do ano: a inclusão pelo Museu de Arte Moderna de Nova Iorque de um trabalho de René Bertholo na segunda parte de uma revisão da arte do século XX, ao mesmo tempo que em Serralves se exibia a retrospectiva da sua obra.
Amadeo de volta à América
Balanço de 2000
Foto: «Saut du Lapin», de 1911, um dos quadros de Amadeo que foram expostos e vendidos no «Armory Show», em 1913
EM 1913, Amadeo de Souza-Cardoso teve uma presença notada entre os mais de 300 artistas incluídos na exposição que levou a arte moderna aos Estados Unidos e que veio a ficar conhecida como «The Armory Show» por ter sido montada, em Nova Iorque, no arsenal desocupado do 69º Regimento de Infantaria. 2000 foi o ano da sua redescoberta americana, graças a uma exposição antológica que se inaugurou na Carcoran Gallery, de Washington, ainda em 1999, foi depois apresentada no Art Club de Chicago e, por fim, em Nova Iorque, na AXA Gallery, em mais uma escala acrescentada à digressão.
«Enquanto foi vivo obteve mais êxito na América do que no seu país ou em Paris», assegura Laura Coyle no respectivo catálogo. Em confronto com o acolhimento mais que discreto das anteriores retrospectivas europeias, pode dizer-se que o mesmo voltou a acontecer depois de morto. Para culminar a operação, foi localizado no Museu de Michigan um quadro vendido em 1913 que era dado como desaparecido.
O título do «Chicago Tribune» de 10 de Fevereiro anunciava: «Finalmente (at long last), uma exposição individual do Modernismo de Cardoso». Na sua crítica, Alan Artner destacou o quadro Coty, de 1917, como a mais pessoal das pinturas de Amadeo e como uma das obras mais impressionantes («striking») de toda a pintura moderna, transcendendo as influências do cubismo e dos papéis colados de Picasso e Braque num «frenético 'patchwork' de texturas e imagens sem paralelo directo na arte desse período».
Numa página inteira da edição de fim-de-semana do «New York Times» (16 de Junho) referia-se «Um flash deslumbrante, vindo da história longínqua», ilustrado a toda a largura pelo quadro Salto do Coelho, de 1911, outra das obras vendidas no «Armory Show», depois doada ao Museu de Chicago. E a influente Roberta Smith, que falava de «un exciting show», uma «retrospectiva caída do céu», voltou à carga no dia seguinte num artigo intitulado «Acrescentando um nome à lista do Modernismo».
No «The New York Observer» de 7 de Agosto, outro crítico de renome, Hilton Kramer, e um título caloroso: «O cubista Amadeo regressa à cidade do Armory Show». A lista poderia continuar.
Em 1913, Amadeo não se deslocou à América, mas, das oito obras que enviara, sete (seis telas e uma aguarela) foram vendidas e não voltaram a Paris. Apoiado pela admiração que lhe votava o pintor e crítico Walter Pach, agente na Europa dos organizadores do «Armory Show», o seu nome foi um dos 35 anunciados no cartaz de Nova Iorque, numa lista que se iniciava com Ingres, Delacroix, Degas, Cézanne, Redon, Renoir, Monet, Seurat e Van Gogh... Depois, a I Guerra Mundial e a morte aos 30 anos, vítima da «gripe espanhola», goraram projectos para expor individualmente na América.
Intitulada «At the Edge: a Portuguese Futurist», explorando no título e no grafismo o pormenor de um alvo (o disco ou olho de boi do quadro Mucha, de 1915), a antologia começou a ser preparada em 1995 por Jack Cowart, director do Museu Corcoran, e por Laura Coyle, conservadora do mesmo museu, em colaboração com o Gabinete de Relações Internacionais do Ministério da Cultura.
O interesse americano traduziu-se numa investigação aprofundada sobre a participação de Amadeo no «Armory Show», reunindo dados inéditos sobre a localização dos seus quadros nas diferentes montagens da exposição (que foi levada também a Chicago e a Boston), bem como sobre a identidade dos coleccionadores que lhe compraram as obras e sobre a respectiva fortuna crítica. Para além das colaborações de José-Augusto França, Pedro Lapa e Rui Afonso Santos, outros textos inovadores de autoria americana debruçam-se sobre as múltiplas relações e influências internacionais do pintor.
Entre as razões da recepção favorável - e trata-se sem dúvida de um êxito genuíno, em que não intervieram movimentações promocionais e de mercado (até porque não há, infelizmente, obras disponíveis para entrarem em museus ou colecções particulares) - poderá estar também o acerto da selecção das 53 obras expostas, que se iniciou com 13 telas e desenhos do período da apresentação de Amadeo na América e que, depois, não se enfeudou à perspectiva habitual que procura associar o pintor à aprendizagem do cubismo escolar e a um ponto de vista excessivamente parisiense.
Entretanto, um outro episódio americano deve figurar no registo do ano: a inclusão pelo Museu de Arte Moderna de Nova Iorque de um trabalho de René Bertholo na segunda parte de uma revisão da arte do século XX, ao mesmo tempo que em Serralves se exibia a retrospectiva da sua obra.
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